Peña: década perdida em Denver

Diane Ravitch nos informa sobre o mea-culpa de Theresa Peña que foi presidente do Conselho de Educação de Denver quando a cidade resolveu implementar a reforma empresarial da educação há mais de uma década.

“Há quase 11 anos, quando eu [Theresa Peña] atuei na Conselho de Educação de Denver, o Conselho e o Superintendente Michael Bennet publicaram um longo manifesto detalhando como planejávamos transformar e melhorar radicalmente a educação pública em Denver. Eles diziam:

“Daqui dez anos, deixe-os dizer que Denver foi a vanguarda da reforma da educação pública. Deixe-os dizer, daqui 10 anos, que em Denver vimos o que os outros não puderam ver, e assumimos a responsabilidade por apoiar nossos filhos. Deixe-os dizer que uma faísca voou em Denver e inflamou uma geração de educadores, crianças, pais e comunidades, e deu-lhes coragem para abandonar o status quo por um futuro brilhante. Podemos fazer isso em Denver; é simplesmente uma questão de imaginação e vontade “.

Em 2007, nosso Conselho acreditava que estávamos começando uma revolução. Nós íamos mudar dramaticamente o desempenho dos estudantes de Denver. Nós íamos construir um novo sistema educacional que servisse primeiro aos alunos.

Nós acreditávamos que os objetivos em nosso plano estratégico, conhecido como o Plano de Denver, fechariam as brechas de desempenho entre estudantes e estabeleceriam um novo caminho para todos os graduados das escolas públicas de Denver.

Estou escrevendo hoje para lhe dizer que falhamos. E, como uma cidade e um distrito escolar, ainda estamos coletivamente falhando com nossos alunos mais necessitados.”

Leia aqui.

Quem responde por este fracasso? As ideias da reforma empresarial podem ter falhado com os alunos de Denver, mas certamente não falharam com aqueles que esperavam lucrar com a implementação das ideias da reforma.

Esta é a razão pela qual é muito difícil impedir que mais décadas sejam perdidas: o voluntarismo acaba sendo presa fácil de ideias que tentam colocar a culpa dos baixos desempenho nas escolas públicas e seus professores.

Teremos que passar por isso também?

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A “reforma” está nua

John Merrow escreve sobre a farsa da reforma empresarial em Washington (USA):

“O rei está nu, e é hora de que todos reconheçam isso. Prova disso é Washington, DC, o preferido da multidão da “reforma escolar” que a ofereceu como evidência das reformas baseadas em testes, as quais recompensavam os professores pela elevação da pontuação do aluno em testes. As pontuações (e aquelas com escores baixos dispararam) eram a bala mágica para reestruturar os distritos escolares urbanos problemáticos.

“Mas agora sabemos que cerca de um terço dos recém-formados do ensino médio de Washington – 900 estudantes – não deveriam receber diplomas e que cruzaram este estágio porque alguns adultos mudaram suas notas ou as empurraram para a farsa conhecida como “recuperação de créditos”, na qual os alunos podiam obter seus créditos de um semestre inteiro passando algumas horas durante uma semana na frente de um computador.”

“Não faz sentido gastar muita energia olhando para trás e criticando. Devemos rejeitar a reforma baseada em testes como a fraude prejudicial que ela é. Esse é o ponto de partida correto.”

Leia aqui.

Sobre Washington, veja aqui também.

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Carrano: “A Tuiuti precisa ir à escola”

Paulo Carrano examina o fenômeno Tuiuti no carnaval do Rio de Janeiro:

“As escolas de samba Beija-Flor, da cidade de Nilópolis, e Paraíso do Tuiuti, do bairro de São Cristóvão, respectivamente, campeã e vice-campeã do carnaval, foram os destaques da crítica social. Outras escolas se apresentaram no mesmo diapasão crítico, tal como a Mangueira que apontou suas baterias e alegorias para o Bispo-Prefeito-Bispo Crivella que tenta mas não consegue esconder que foge do Carnaval e de outras culturas populares  como o diabo foge da Cruz.

Quero falar, contudo, especificamente do fenômeno da Paraíso do Tuiuti que foi mais fundo na crítica das injustiças sociais denunciando a persistência da escravidão como matriz de nossas injustiças e desigualdades sociais e o arranjo golpista-neoliberal que habita, hoje, o governo federal. O samba da Tuiuti casou com o enredo e o desfile empolgou o Brasil que ainda se quer consciente, crítico e mobilizado. A escola da comunidade de São Cristóvão realizou a crítica das injustiças sociais do tempo presente puxando os fios de história para lembrar da escravidão de ontem e a de hoje, “mais viva do que nunca”, que aprisiona milhões no “cativeiro social” cujos produtos consumimos e que, pela força da alienação, tem a sua existência por nós negligenciada, tal como afirma a sinopse do enredo distribuída pela escola e sobre a qual comento ao final desta postagem.”

Leia toda a análise aqui.

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BREAKING NEWS: Nova Zelândia vai eliminar BNCC e Charters

O Ministro da Educação da Nova Zelândia, Chris Hipkins, enviou um projeto de lei na quinta feira passada que “acaba com os fracassados padrões nacionais [BNCC] do governo anterior e com as experiências das escolas charters.” Segundo o ministro a nova legislação é “apoiada pela grande maioria do setor educacional”.

“Tanto os padrões nacionais como as escolas charters foram conduzidas com base em ideologia e não em evidências. Ambos foram rejeitados pela grande maioria do setor educacional. O forte ponto de vista do governo é que não há lugar para eles no sistema educacional da Nova Zelândia”.

O projeto de lei inclui provisão para que as escolas charters existentes ainda operem sob seus contratos, enquanto o Ministério discute possíveis opções, inclusive no sistema estadual, para cada uma delas.

Se a finalização antecipada dos contratos não for acordada, o ministro de Educação disse que “nos reservaremos o direito de emitir um aviso de “rescisão por conveniência”, nos contratos existentes das escolas charter, até meados de maio de 2018.”

A lei ainda determina que em todas as Universidades e politécnicos existirão representantes dos funcionários e dos estudantes como membros de pleno direito em seus conselhos.

Leia aqui.

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Criança tem direito de estudar na escola

Tramita no Senado Projeto de Lei 28/2018 do Senador Fernando Bezerra Coelho (PMDB/PE) que permite que os pais não encaminhem seus filhos à escola e tenham educação domiciliar: o homeschooling. Até agora, não enviar criança à escola era crime que configurava abandono intelectual previsto em decreto 2848 de 1940.

A ala conservadora quer poder “proteger” suas crianças da escola e fazer sua instrução em casa, impondo a elas a privação de vivenciar a diversidade e impedindo a convivência coletiva com as demais. Cresce com isso o sectarismo e a intolerância social com aquele que é diferente. Mais ainda, deixa as crianças completamente despreparadas para a vida social coletiva. Importantes aspectos do desenvolvimento social da criança são negligenciados.

Devemos observar que os processos de “escolha da escola” no qual a homeschooling se enquadra cresceram nos Estados Unidos quando a Corte Suprema determinou a desegregação imediata das escolas americanas, na batalha de afirmação dos negros. Os conservadores brancos, então, usaram o “direito de escolher a escola do seu filho” como forma de evitar enviá-los a escolas desegregadas.

Além disso, esta forma de instrução cria possibilidades de se ampliar a exploração das crianças em trabalhos domésticos e familiares em regiões praticamente impossíveis de serem fiscalizadas, para não falar dos casos mais graves como o ocorrido nos Estados Unidos onde os pais acorrentaram 13 filhos em casa, que viviam em regime de escravidão, alegando que praticavam homeschooling.

O projeto recebe emendas até o dia 19/02/2018. Entre no site do Senado cadastre-se e vote não na consulta pública.

Em sua justificativa o Senador diz:

“A educação domiciliar (da língua inglesa – homeschooling –, por serem os países anglo-saxões os locais onde essa modalidade mais se desenvolveu), tem atraído a atenção de crescente número de famílias brasileiras. Seja pelo seu desencanto com a qualidade das escolas públicas,  combinado com o alto custo das instituições privadas de ensino, seja pelo ambiente carregado de violência e de desrespeito a princípios básicos de convivência nas instituições escolares de todo tipo, essas famílias têm optado por desenvolver a educação de seus filhos no ambiente doméstico, com observância às individualidades de cada educando, aos seus tempos próprios de aprendizagem. A experiência é exitosa em países como Portugal, Austrália, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Finlândia, Inglaterra, Israel, Nova Zelândia, África do Sul, Noruega, entre outros.

No entanto, devido a uma interpretação restritiva do texto constitucional e da falta de previsão específica na Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1994 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), as famílias que adotam a educação domiciliar têm sofrido verdadeira perseguição legal no Brasil, que pode redundar, até mesmo, em condenações pelo crime de “abandono intelectual”, tipificado no art. 246 do Código Penal. Longe de se constituir uma negligência parental, a educação domiciliar é, na verdade, a opção pela condução e o acompanhamento da educação dos filhos de maneira direta e atenta.

É verdade que ainda não existe disciplina legal sobre educação domiciliar, sendo omissa a LDB neste ponto. Nesse cenário, surge o princípio geral da legalidade, segundo o qual é permitido ao cidadão tudo o que não for proibido em lei.

Também é evidente que eventuais simulações e fraudes relacionadas ao método de educação domiciliar não encontram guarida na presente proposição. Somente os pais e responsáveis que proporcionaram a educação domiciliar estão protegidos com a alteração pretendida ao Código Penal.

Desse modo, conferimos amparo legal mínimo, retirando do tipo penal a conduta de prestar educação domiciliar, para que as famílias exerçam a liberdade de escolha sobre o modo de oferta da educação básica de seus filhos.”

Baixe o projeto aqui.

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Pio Martins no país das maravilhas

José Pio Martins, economista e Reitor da Universidade Positivo, escreveu na Gazeta do Povo (26/10/2017) um elogio ao livre mercado bem ao gosto do pensamento da direita política que está em alta no Brasil, especialmente nesta era pós-golpe. O artigo, reproduzido ontem (10/02/2018) no jornal Correio Popular de Campinas (SP), é interessante pela linha de argumentação didática que revela os elos centrais da cadeia de pensamento da direita liberal. Neste sentido, é um bom roteiro para contrapormos divergências.

Ele começa com a afirmação de que o corpo é o primeiro patrimônio do ser humano. O segundo é o direito de apropriar-se livremente do seu trabalho, o qual é produzido pelo seu corpo e mente. Isso, segundo o autor, funda o “direito de propriedade”, e o excedente que este “ser” consegue produzir para além de suas necessidades básicas, pode ser apropriado e acumulado por ele na forma de propriedades tangíveis e intangíveis. Em tese, todos poderiam fazer isso, pois é uma condição natural.

Já de partida, se vê que o indivíduo (e o individualismo) é o centro do argumento, e não os interesses do coletivo de seres humanos. Não há limites à acumulação individual. Liminarmente, elimina-se qualquer possibilidade de se pensar em acumular coletivamente, ao invés de acumular individualmente, pois isso seria cercear a liberdade de acumulação individual. Eis a origem dos problemas: a ganância fica livre para mover o mundo, às custas dos problemas sociais, ambientais e outros.

O argumento determina que um corpo e mente deve livremente se apropriar do que ele mesmo produziu e curiosamente, não impede que determinados “seres”, especialmente aqueles que se apropriam de excedentes que vão muito além das suas necessidades básicas, usem seu corpo e mente para apropriar-se do excedente produzido por outros corpos e mentes humanos.

O argumento oculta a lógica do sistema capitalista que Pio Martins não aborda. A tese legitima situações nas quais corpos e mentes, prévio acordo, cedem “livremente” a outros aquilo que produzirem em troca de um salárioNeste caso, através deste suposto livre “acordo” entre as partes, a tese é suspensa e um ser pode deixar de se apropriar daquilo que produz – mesmo que o que receba em troca seja apenas uma ínfima parte daquilo que produziu. “Livremente acordado” nada há a reclamar. Toda a ordem social capitalista está assentada sobre o pilar da “livre” venda da força de trabalho a outro ser. A farsa é tão grande que houve necessidade de se fixar um “salário mínimo” que, em tese, permitisse pelo menos a reprodução da própria força de trabalho explorada. E mesmo com valor irreal, isso é considerado ético.

Estamos tão imersos nestas relações que somos impedidos de pensar sobre sua ética e a consideramos “natural”. De fato, não se trata de “livre acordo”, já que não há outra alternativa de vida para a maioria das pessoas, pois ou a pessoa vende para alguém sua força de trabalho ou não tem como sobreviver. Uma pequena parcela da população mais rica cria para si esta condição de vida favorável: viver da apropriação “forçadamente consentida” do trabalho de outros. A grande massa, no entanto, não tem alternativa e, neste sentido, pode-se indagar se a tese de que um “ser” deve ter o direito de propriedade sobre o excedente que ele produz não estaria sendo, na prática, negada para estes outros seres que são colocados em situações de terem que gerar excedentes para um outro ser se apropriar, nunca podendo, por isso, ir além das suas necessidades básicas e se constituir como sujeitos de direitos.

Mas no mundo liberal tudo tem explicação, e a liberdade de apropriar-se livremente do produto de seu trabalho (e portanto, do trabalho dos outros) é algo que exige outras condições. O autor dá uma pista: ser rico ou ser pobre não é algo que esteja dado a todos. Para ele “Deus não é socialista e não fez os homens iguais”. Eis a revelação.

“Uns são geniais, outros são medíocres. Uns se esmeram em cultivar virtudes, outros chafurdam nos vícios. Uns se dedicam ao trabalho duro, outros são preguiçosos. Uns são éticos, outros são bandidos.”

“Para que trabalhar, se um medíocre preguiçoso tivesse a mesma recompensa? Na prática, o igualitarismo, antes que uma dádiva, é uma punição.”

Dessa forma, tudo se esclarece pelo “mérito”, pelo “buraco negro” do mérito. No país das maravilhas de Pio Martins, vê-se que a sociedade se divide, portanto, entre aqueles que supostamente vivem para cobrir suas necessidades básicas e aqueles que, por mérito, acumulam para além das necessidades básicas, mesmo que acumulem a partir do que foi produzido por outro corpo e mente que, por isso, não consegue ir além de suas necessidades básicas, pois é expropriado da maior parte daquilo que produz. Deduz-se, assim, que o mérito justifica tal apropriação “acordada” do trabalho alheio. Há controvérsias, no entanto, que abalam a convicção de que o mérito explique tal sucesso:

“A Oxfam afirma que há evidências de que “talento, esforço e disposição de assumir riscos” dos bilionários não são as principais causas da grande concentração de renda na mão dessas poucas pessoas. Segundo seus cálculos, dois terços dessas fortunas são consequências de heranças, monopólios (que “alimentam retornos excessivos para proprietários e acionistas à custa do restante da economia”) e clientelismo, ou seja,”a capacidade de interesses privados poderosos de manipular políticas públicas no intuito de consolidar monopólios existentes e criar outros” (leia mais aqui).

Pio Martins evita questões deste tipo e orienta o leitor a deixar de lado o que convém ocultar:

“Consideradas tantas diferenças – sem entrar no mérito das razões por que os seres humanos são diferentes – atribuir rendas e recompensas iguais a talentos, habilidades e esforço diferentes é impraticável, além de ir contra o interesse de todos.” (Grifos meus LCF.)

Ou seja, a culpa é de Deus que fez alguns com talentos, hábeis e dedicados e outros preguiçosos, bandidos e viciados. No melhor dos casos, transferirá a culpa de Deus para os próprios indivíduos que não se prepararam para possuir os meios com os quais poderiam explorar outros seres humanos. Deduz-se que para Pio Martins, quem é rico mereceu ser rico (e desfrutar da riqueza), quem é pobre mereceu ser pobre. É a lógica da responsabilização do indivíduo que oculta as relações sociais.

Mas a questão que Pio Martins não quer examinar é exatamente a mais relevante: o mérito das razões por que as pessoas são diferentes. Não é suficiente encontrar um ente superior responsável que nos livre da culpa e muito menos considerar a vítima como responsável pela sua própria situação, livrando e legitimando a exploração de uns sobre os outros. Isso aplaca as dores de consciência da direita, mas não tem base empírica.

A questão que não deixa a elite dormir é que caso esta engrenagem social se desfizesse, aí sim os ricos teriam que viver somente do excedente de seu próprio corpo e mente, como qualquer cidadão comum, sem apoiar-se no trabalho alheio.

Mas, alto lá, nosso autor considera que a vida de rico não é moleza. O rico não é dono do seu tempo e o pobre pode até se considerar mais feliz que o rico, pois, não possuindo tanto, pode sentir-se até mais livre e menos perturbado pelos problemas. Isso se deveria a que “desejos diferentes são a essência de nós, humanos”: como vida de rico é trabalhosa, há quem até prefira a pobreza… livre arbítrio. O corolário vem a seguir:

“O objetivo, portanto, não deve ser a igualdade de posses para todos os seres humanos. O objetivo deve ser outro; deve ser uma situação social em que aqueles que têm menos consigam viver dignamente, alimentados e abrigados, com saúde e educação”.

Pensamento nobre ainda que nunca realizado pelo liberalismo no que se refere à  vida digna. Nesta lógica, penso, deveríamos agradecer aos ricos por eles permitirem que trabalhemos, ou seja, que sejamos explorados por eles.

Esta promessa de vida digna é um recurso destinado a manter a pobreza pronta para ser adequadamente explorada pelo 1% mais “habilidoso e capacitado”. E para tal ela deve ter empregabilidade, ter alguma condição de vida e ajudar, cada um em seu devido lugar, a manter o status quo, sem se converter em uma ameaça às elites que desfrutam o justo mérito de serem ricas.

O objetivo a que se destina o artigo de Pio Martins só é revelado ao seu final.

“Para retirar uma parte de quem tem e distribuir a quem não tem, a humanidade inventou o Estado e seu braço executivo, o governo. Só que o Estado, com o tempo, tornou-se ele próprio um problema, pois, com suas estruturas inchadas, burocracias caras, corrupção elevada e ineficiência gerencial, passou a prejudicar a produção e ser pouco eficiente na distribuição.”

“Portanto, antes de aumentar impostos, cumpre consertar ou ao menos reduzir os defeitos do Estado. Se isso não for feito os contribuintes ficarão mais pobres e os pobres não ficarão mais ricos”.

Este discurso da ineficiência do Estado, no entanto, oculta a posição dos liberais na questão tributária: eles justificam pelo seu mérito a apropriação do trabalho de outros corpos e mentes humanos mas, ao mesmo tempo, não aceitam que o Estado se aproprie através de impostos daquilo que seu corpo produziu (produziu?).

Na verdade, o Estado foi inventado para gerenciar os interesses das elites – inclusive abrigando “golpes”. Governos, às vezes, é que tentam contrariar esta lógica. Como a exploração cria condições de miséria insuportável em um regime político baseado na democracia liberal onde cada um vota, um governo pode tornar-se “vulnerável” ao apelo dos mais pobres e terminar tomando ações que tendam a minimizar os efeitos da pobreza. Isso pode gerar cobrança adicional de impostos para financiar programas sociais.

A conversa da direita é sempre a mesma e termina na questão do pagamento de impostos. O principal receio dos ricos é que um governo de tipo distributivo precise de mais impostos para financiar os programas sociais de distribuição de renda e que tenham que pagar a conta. Quando há tal risco, os mais ricos se organizam para conter o que chamam de “populismo de esquerda”. É o momento em que estamos vivendo.

A alegação da direita (e da nova direita ainda mais radical) é que ao cobrar mais impostos se fere o direito de propriedade, pois o que um corpo e mente conseguiu ganhar deve ser apropriado por este corpo e mente (pelo menos no caso das elites) e não pelo Estado através de impostos destinados a financiar programas de governos que se destinam a beneficiar os mais pobres. Acreditam que se acumularam mais riquezas isso deveu-se exclusivamente ao seu mérito, não é justo, portanto, que tenham que repartir seus ganhos com quem não tem mérito. Com base nisso é que os ricos gostam de dizer que “é preciso tirar o Estado de cima das costas da sociedade”, leia-se: das costas dos mais ricos.

Mas as razões da mediocridade de uns e da genialidade de outros não podem ser explicitadas, pois se o fossem revelariam a própria estrutura social reprodutora da injustiça, colocando em risco o projeto liberal. Que uns possam explorar outros, é uma questão apenas de mérito e não deve ser discutida. 

Por este caminho, quem não tem do que se apropriar é porque não aproveitou as oportunidades e se tornou preguiçoso, bandido ou se entregou aos vícios. No máximo, deve pretender viver dignamente, alimentado e abrigado, com saúde e educação – e agreguemos, cada um no seu devido lugar social, de preferência comportadamente. Eles não merecem a boa vida que é reservada aos “esforçados”. Porém, até mesmo a tal promessa de uma vida digna para todos está longe de ser cumprida.

Esta elite brasileira e seus intelectuais estão tão distantes da realidade que nem o exemplo trágico dos violentos conflitos no Rio de Janeiro consegue sensibilizá-los para os equívocos deste raciocínio. Quanto mais explorarem o outro, mais construirão um mundo conflituoso que os impedirá de gozar da própria riqueza – não importa onde morem. A elite está tão acuada pelas dificuldades de continuar acumulando que resolveu apertar o botão “dane-se”.

Compete aos que já não têm oportunidades para acumular excedentes, ou seja, aos trabalhadores de fato, realizar seu projeto histórico de parar esta elite, antes que seja tarde. Como fazê-lo considerando que os estados nacionais já não têm autonomia, que os donos do Estado quando se sentem “ameaçados” mobilizam golpes e recusam uma perspectiva redistributiva por dentro dele, é o que deve ser objeto de estudo das esquerdas. Com dois golpes (1964 e 2016) já é hora de termos aprendido algo.

Para acreditar nas maravilhas do liberalismo de Pio Martins, prometidas há mais de quatro séculos e ainda não realizadas, é preciso acreditar também que Alice pode ir ao país das maravilhas.

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SEGREGAÇÃO: o culpado mora ao lado

Relatório sobre segregação escolar falha ao abordar a complicada relação entre as escolas e a sua vinhança. As escolas charters americanas, segundo uma montanha de dados disponíveis, aceleram a segregação escolar. Um relatório do Brookings Institution procura desfazer esta conexão tentando estabelecer que a segregação das escolas charters não é mais do que o reflexo das próprias comunidades segregadas que estão ao redor da escola. Mas os revisores do National Education Policy Center não encontram base para a conclusão da pesquisa.

BOULDER, CO (8 de fevereiro de 2018) – Balancing Act: Schools, Neighborhoods, and Racial Imbalance, publicado pela Brookings Institution, assume a importante tarefa de explorar a segregação escolar e residencial examinando a composição racial das escolas em comparação com seus bairros próximos.

Os professores Genevieve Siegel-Hawley da Virginia Commonwealth University e Erica Frankenberg, da Universidade Estadual da Pensilvânia, revisaram o estudo e apontam que sua fundamentação inconsistente em pesquisa, leis e métodos que informam a desegregação escolar, limita sua utilidade quando se trata de informar políticas e práticas.

O relatório sugere que as escolas racialmente concentradas são o resultado da segregação residencial e de como os limites do distrito escolar são desenhados de forma a separar as populações. Também explora a possibilidade de que as escolas charters, que são liberadas das restrições dos limites tradicionais, possam interromper a conexão escola-vizinhança. Também encontram que as escolas charter são, em média, mais equilibradas racialmente do que outras escolas públicas.

Siegel-Hawley e Frankenberg consideram que as decisões metodológicas do relatório, como o tratamento igual entre áreas metropolitanas e rurais e suas definições de vizinhança, não são totalmente explicadas ou não possuem base em pesquisa. Essa fraqueza mina a utilidade do banco de dados recém-criado – que seus autores consideram como uma contribuição vital do relatório.

Embora os avaliadores acreditem que o relatório merece crédito por abordar o complicado relacionamento entre a segregação escolar e habitacional e por ter renovado a atenção para questões que são freqüentemente consideradas separadamente, eles concluem que o relatório, em última instância, representa uma oportunidade perdida para explorar com precisão esta conexão.

A revisão de Genevieve Siegel-Hawley e Erica Frankenberg, está aqui.
O relatório original: Balancing Act: Schools, Neighborhoods, and Racial Imbalance, de Grover J. “Russ” Whitehurst, Richard V. Reeves, Nathan Joo e Pete Rodrigue, publicado pelo Brookings Institution, está aqui.

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Reforma empresarial avança nos países nórdicos

Helena Hinke D. Candido, na Finlândia, nos envia material que mostra como se dá o avanço das ideias da desregulamentação, privatização e mercantilização na educação nos países nórdicos.

Leia em “Deregulation, privatisation and marketisation of Nordic comprehensive education: social changes reflected in schooling“, recém-publicado por Dovemark, M.; Kosunen, S.; Kauko, J.; Magnúsdóttir, B.; Hansen, P. e Rasmussen, P..

Pelo estudo, embora a Finlândia não esteja isenta das influências, nota-se que resiste à onda da reforma empresarial da educação. Em relação à Finlândia, os autores encontram alguma evidência de promoção da “escolha de escola” em cidades, mas a política global ainda mantém a escola pública como a principal fornecedora de educação. Obtenção de lucro e taxas de matrícula são proibidos, não há testes padronizados e nem inspeção nas escolas. Não há também a publicação de padrões de aprendizagem à moda de nossa BNCC.

Resumo do estudo: “Os países nórdicos são muitas vezes percebidos como um grupo coerente que representa o modelo nórdico de estados de bem-estar, com uma forte ênfase no fornecimento público de bem-estar universal e uma forte preocupação com a igualdade social. Mas hoje vemos uma mudança no modelo nórdico como parte de uma economia global do conhecimento. O objetivo deste artigo é examinar a educação nos cinco países nórdicos utilizando três dimensões da mudança política: desregulamentação, comercialização e privatização. Analisamos também as mudanças paralelas em relação à segregação e diferenciação na educação. A análise mostra que os temas relacionados à desregulamentação parecem mostrar padrões e estruturas bastante semelhantes em todos os contextos. As diferenças emergentes foram descobertas principalmente nos temas de mercantilização e privatização. A segregação institucional emerge em todos os países nórdicos em diferentes níveis ao longo das linhas desses três processos, e observamos uma segregação e diferenciação social simultânea em conexão ambígua com eles. Com base nestes achados, a questão do que resta do “modelo nórdico” poderia ser levantada.”

Acesse o estudo aqui.

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Punir Faculdades melhora a educação? (novo link)

A reforma empresarial da educação bolou um esquema “genial” para aumentar a qualidade da educação: instituiu provas para os estudantes realizarem nas escolas americanas e com isso, se os alunos falham nas provas, seus professores são considerados culpados (os salários são impactados).

Além disso, as faculdades que formaram estes professores são igualmente culpabilizadas e portanto, punem tais faculdades se o desempenho dos alunos não melhorar nas provas feitas nas escolas onde tais professores, formados por elas, estão empregados. Tudo devidamente calculado, semelhante “genialidade” não podia deixar de funcionar. Dezesseis estados americanos entraram neste esquema. Agora, estudos começam a mostrar que não é tão simples assim.

Como a besteira vai chegar por aqui, é melhor anotar. Em tempos de ENAMEB que, agora, já inclui “certificação” de professores, em tramitação no Congresso, não faltará aquele que procurará estabelecer uma relação entre o desempenho dos professores no Exame Nacional de Avaliação da Educação Básica – ENAMEB – e as Faculdades que os formaram.

Um novo estudo publicado: “Quanto a qualidade dos professores varia em função dos programas de preparação de professores? Reanálise de seis estados”, conduzido por Paul T. von Hippel e Laura Bellows, concluiu que:

“Nossos resultados mostram que as diferenças de qualidade dos professores entre a maioria das TPPs [Programas de Preparação de Professores] são insignificantes – .01 – 0.03 desvios-padrão nos resultados dos exames dos alunos – mesmo em estados onde diferenças maiores foram relatadas anteriormente.”

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Monbiot: sobre MacLean e o programa do capitalismo

George Monbiot escreve no The Guardian sobre como Charles Koch e outros bilionários financiaram, nas sombras, um projeto político que implica devastar o serviço público e o bem comum, para estabelecer a “liberdade total” do 1% mais rico.

“É o capítulo que faltava, uma chave para entender a política dos últimos cinquenta anos. Ler o novo livro de Nancy MacLean, Democracy in Chains: the deep history of the radical right’s stealth plan for America [Democracia Aprisionada: a história profunda do plano oculto da direita para a América] é enxergar o que antes permanecia invisível.”

Leia mais aqui.

Leia também: Salvar o capitalismo da própria democracia .

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Escosteguy Filho: a batalha da privatização

João Carlos Escosteguy Filho escreve no Painel Acadêmico uma boa recuperação dos bastidores do mercado que mostra o aprofundamento da privatização na educação brasileira: “Uma pequena história dos dias de hoje: Considerações sobre a privatização da educação no Brasil”.

“A grande batalha da próxima década na educação será contra o privatismo. Impossível entender qualquer discussão sobre educação no Brasil, hoje, sem levar em conta esse gigantesco movimento de bastidores.”

Leia o texto aqui.

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Consequências indiretas da meritocracia

Segundo a escritora Joan Ryan, “a Federação de Ginástica dos EUA priorizou medalhas de ouro e fez vista grossa aos métodos empregados por treinadores”. Isso pode ter criado condições que levaram o médico Larry Nassar a abusar de mais de 200 atletas. Para ela:

“Todos os tipos de abusos na ginástica são motivados pela necessidade de ganhar medalhas de ouro”.

Sobre a atuação dos dirigentes da Federação de Ginástica dos EUA ela afirma que todos os dirigentes foram lenientes com esta situação pois:

“Eles eram donos de academias, treinadores ou patrocinadores. Tinham uma agenda própria quando tomavam decisões.”

Leia entrevista completa aqui.

Meritocracia e negócios privados, juntos ou separados, devem ficar longe das escolas.

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Washington: nova crise abala reforma empresarial

Valerie Strauss registra um novo escândalo no sistema educacional construído pelos reformadores empresariais na rede pública de Washington D. C., que esteve sob orientação inicial de Michelle Rhee:

“Durante anos, a narrativa nacional sobre o distrito escolar foi a de um sistema muito problemático existente na capital do país: depois de décadas de baixo desempenho e estagnação, mais recentemente o sistema estava avançando com um programa de “reforma” que era um modelo para a nação. A história triunfante incluiu o aumento dos resultados nos testes padronizados e escolas “milagrosas” que viram as taxas de conclusão saltar sobre a lua em pouco tempo. Arne Duncan, secretário de educação do presidente Barack Obama por sete anos, chamou-o de “uma história notável” em 2013.

Esse conto parece muito menos notável após as revelações de que educadores e administradores, sentindo pressão de seus chefes para aumentar as taxas de conclusão e o desempenho dos alunos, permitiram que muitos estudantes que não possuíam as qualificações necessárias se formassem.

Um estudo sobre a cidade – realizado após relatos da mídia – revelou a situação e descobriu que mais de 900 de 2.758 alunos que se formaram em uma escola pública da rede no ano passado não participaram de aulas suficientes ou cursaram sem registro aulas maquiadas. Em um campus, Anacostia High, no sudeste de Washington, quase 70 por cento dos 106 diplomados receberam diplomas de 2017, apesar de violar algum aspecto da política de conclusão da cidade.

Veja aqui.

Veja também aqui.

Diane Ravitch também escreve sobre a nova crise de Washington, D.C.:

“Há um novo escândalo no Distrito da Colômbia que abala os verdadeiros crentes na reforma ao estilo Michelle Rhee. Uma investigação independente sobre a taxa de conclusão do ensino médio constatou que 1/3 dos graduados do distrito não deveriam ter recebido diploma.

Os reformadores têm promovido as escolas públicas do Distrito de Columbia como um modelo de sucesso desde que Michelle Rhee empunhou sua vassoura e varreu todo professor “ruim”. Embora não tivesse experiência prévia como administradora ou diretora, ela foi escolhida pelo prefeito Adrian Fenty para rever o sistema escolar. Ela fez isso com espírito maldoso. Ela abertamente zombou da colaboração, que ela dizia ser para os perdedores. Ela tentou demitir quantos professores e diretores pôde, e estabeleceu metas de pontuação em teste que todas as escolas deveriam atingir. Ela saiu quando o prefeito que a nomeou foi derrotado em 2010, mas o Distrito permaneceu fiel à sua visão de coração frio. Rhee formou então uma fundação chamada Students First, dedicado a promover a demissão de professores, atacar sindicatos e promover as escolas charters e os vouchers. A Federação Americana da Crianças de Betsy DeVos [atual Secretária da Educação de Trump] homenageou-a com um prêmio por seu serviço à causa da destruição da educação pública, um prêmio que ela compartilhou na época com o governador de Wisconsin, Scott Walker.

Mas não muito tempo depois da sua saída, veio à luz um grande escândalo, em 2011, quando o jornal USA Today realizou uma investigação e determinou que havia fraude literalmente incríveis nos testes do Noyes Educational Complex. Rhee zombou das alegações de trapaça, pois o diretor de Noyes era uma de suas estrelas.

O seu sucessor, Kaya Henderson, continuou com as políticas de Rhee, em como o novo chanceler Antwon Wilson (um graduado da Broad Academy) e também um verdadeiro crente da “Rheeform” (em Oakland, ele quase faliu no distrito contratando grande número de administradores).

Washington D.C. continua a ser um santuário da reforma, mas é realmente um monumento à Lei de Campbell. Quando a medida se torna o objetivo, tanto a medida quanto o objetivo são corrompidos.

O atual escândalo das taxas de graduação é provavelmente a ponta do iceberg.”

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BNCC e Common Core

The Washington Post publica artigo no qual descreve como Bill Gates financiou o Common Core americano, equivalente à nossa BNCC, Base Nacional Comum Curricular, mas restrita a leitura e matemática. O pressuposto equivocado foi que o problema da educação americana era a “variabilidade”, a falta de “uniformidade”. Diane Ravitch comenta em seu blog dizendo:

“Bill Gates, Arne Duncan, o presidente Obama e outros que promoveram os “Common Core State Standards” gostam de dizer que eles foram desenvolvidos pelos estados, pelos governadores, por professores, por pessoas na base. Não foi bem assim. Um artigo de Lyndsey Layton no Washington Post explica que Bill Gates financiou o Common Core do início ao fim.”

“Gates e outros erroneamente assumiram que o maior problema na educação americana era a variação, a diversidade, a falta de uniformidade. Gates fez vários discursos sobre a necessidade de padrões uniformes, comparando-os com os padrões de eletricidade, permitindo que alguém conecte um aparelho em qualquer lugar. Nunca lhe ocorreu que as crianças não são torradeiras e os professores não são meramente distribuidores de conteúdo. Ele parece ignorar completamente a estreita correlação entre renda familiar e desempenho acadêmico.

“Em alguns anos, os padrões serão esquecidos, obsoletos. Os padrões de eletricidade podem ser nacionais e estáveis. Mas, ensinar e aprender são dinâmicos, dependentes das condições sociais das famílias e das crianças, bem como da mudança do conhecimento sobre o ensino e a aprendizagem.”

É isso que copiamos com a nossa BNCC. Aqui só mudou o nome do financiador: Lemann.

No Brasil o MEC tem o discurso de que os padrões não impedem que os estados façam seus currículos e que os professores estabeleçam suas metodologias. Mas isso oculta que a política de responsabilização baseada em testes exige que as crianças, os professores e as escolas para serem consideradas “boas”, tenham bom desempenho nos testes, os quais são feitos a partir dos padrões previamente fixados. Portanto, o que é “teoricamente” concedido, é na prática retirado pela avaliação censitária das avaliações nacionais. Para que o desejo do MEC se concretizasse, as provas nacionais não poderiam ser censitárias, mas apenas amostrais. E isso está fora de cogitação, pois rompe o pilar básico da responsabilização verticalizada e autoritária que se quer criar.

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Fundos de investimento entram na educação

Inova BH é uma empresa da Odebrecht Participações que gerencia PPPs (Parcerias Público-privadas) em Belo Horizonte fazendo obras e outros serviços de operação e funcionamento de unidades na rede municipal. Foi vendida para o 3G Fundo de Investimentos. Com isso entra na roda viva do lucro dos fundos. Há algum tempo, a Tarpon, outro fundo de investimento, adquiriu o controle da Abril/Somos Educação (veja aqui).

Segundo a Forbes:

“Na avaliação da autarquia [CADE], a operação não gera preocupações concorrenciais porque “representa a entrada do 3G nos mercados de prestação combinada de serviços de apoio, não pedagógicos, a instituições educacionais” e a aprovação cabe ao município de Belo Horizonte, onde a Inova opera.

“Ainda segundo parecer no site do Cade, as atividades da Inova abrangem serviços gerais de lavanderia e rouparia, help desk, operação reprográfica, segurança, higiene e limpeza, manutenção e provisão de utilidades de energia, manutenção e construção predial e de ativos, provisão de equipamentos e mobiliário, jardinagem e controle de pragas.”

Ou seja, aos poucos a educação brasileira vai sendo transferida para a esfera do lucro.

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Uberlândia terceiriza escolas

A Prefeitura Municipal de Uberlândia, MG, anuncia a terceirização de escolas. Segundo o site Brasil de Fato:

“A empresa responsável pelo convênio ainda não foi definida, mas especula-se que a Fundação Cultural e Assistencial Filadélfia, ligada à igreja Assembleia de Deus, já tenha conversas avançadas para assumir a gestão das escolas. Foi disponibilizado um edital para a contratação de professores.”

Entidades da educação em Uberlândia se organizam para reagir em defesa da educação pública com gestão pública:

“É a primeira vez que um prédio público, construído com verba pública, que tem demanda, será entregue a uma ONG. Isso é um caminho que levará à privatização da educação, o que para nós é inaceitável. A educação é um direito constitucional que está sendo violado na nossa cidade”, critica a professora Marina Ferreira de Souza Antunes, presidenta do Conselho Municipal de Educação (CME). Ela afirma que o conselho não foi sequer procurado pela prefeitura para debater a proposta.”

Leia mais aqui.

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Estreia em março: Fora de Série

“Fora de Série”, dirigido por Paulo Carrano, é o mais recente documentário produzido pelo Observatório Jovem do Rio de Janeiro. É um filme com estudantes do ensino médio da Educação de Jovens e Adultos (EJA) de 13 escolas públicas do Rio de Janeiro.

Nele os jovens narram percursos de vida e contam histórias sobre seus relacionamentos com a escola; os relatos apresentam desafios que envolvem o processo da formação escolar e revelam os suportes e apoios encontrados dentro e fora da escola para concluir o ensino médio.

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Quando a democracia atrapalha

“Vivemos esta “espiral descendente” que o filósofo italiano Giorgio Agamben qualificou como “estado de exceção” num livro profético lançado em 2003[1]. Nele, vale a lógica da necessidade (no caso, da necessidade dos ricos) que tem dois sentidos aparentemente opostos : “a necessidade não reconhece nenhuma lei e a necessidade cria sua própria lei” (40). Isso leva a esta situação paradoxal que vivemos no Brasil e foi tipificada por Agamben: “As medidas excepcionais encontram-se na situação paradoxal de medidas jurídicas que não podem ser compreendidas no plano do direito, e o estado de exceção apresenta-se como a forma legal daquilo que não pode ter forma legal” (11/12).”

Leia mais aqui.

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Chile aprova gratuidade no ensino superior

Depois de passar pela experiência desastrosa do ensino superior pago, Chile volta a ter ensino superior gratuito. Os estudantes, agora, estão livres de uma das mensalidades mais caras do mundo.

“O Congresso do Chile aprovou nessa quarta-feira (24 de janeiro de 2018), em último debate, a lei do ensino superior que estabelece gratuidade universal, uma decisão que o governo da presidente Michelle Bachelet classificou de “histórica” e um dos projetos emblemáticos de sua gestão.

Com 102 votos a favor e apenas duas abstenções, a Câmara dos Deputados – o último trâmite antes de ser promulgada – aprovou a lei que garante a gratuidade do ensino superior no país.”

Veja aqui .

A Lei aprovada estipula já para 2018 o acesso gratuito de 60% dos setores mais pobres. A Ministra de Educação Dalpiano destacou que:

“é parte integral deste projeto estabelecer como vamos seguir avançando em Gratuidade e que as famílias dos setores médios não vejam em risco a possibilidade de que seus filhos possam estudar.”

Leia mais aqui.

Na educação básica, em 2015, já haviam ocorrido mudanças também em direção à gratuidade do ensino:

“Respecto al objetivo de la Ley de Inclusión de poner fin al aporte obligatorio de las familias para financiar la educación de sus hijos e hijas, la ministra Delpiano informó que desde su promulgación en el año 2015, 958 establecimientos han pasado a ser totalmente gratuitos, lo que representa un 42% de los establecimientos que tenían copago. A la fecha, 1.375.227 alumnos de establecimientos particulares subvencionados estudian gratuitamente, lo que representa el 72,3% de la matrícula del sector.”

Veja mais aqui.

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CONAPE 18 divulga Caderno de Debates

CadernoConape18 Sob organização de João Ferreira de Oliveira (Anpae); Andrea Barbosa Gouveia (Anped) e Heleno Araújo (CNTE) foi divulgado o Caderno de Debates sobre a avaliação do PNE 2014.

Na reunião da Coordenação Executiva da CONAPE 2018, ocorrida em 02 de outubro de 2017, por ocasião da 38ª reunião da Anped, foi decidido, entre outros assuntos, produzir pequenos textos de avaliação das metas do PNE, visando contribuir com os debates nas conferencias municipais, estaduais e livres no contexto da Conferencia Nacional Popular de Educação 2018 (CONAPE 2018).

Acesse aqui o Caderno de Debates.

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SARESP 2017: mais uma década perdida em SP

A imprensa começa a divulgar o SARESP – a prova anual de avaliação que o Estado de São Paulo faz em língua portuguesa e matemática para todos os alunos do Ensino Fundamental (EF) e Médio (EM). Não há alarde sobre o novo fiasco, afinal o “chefe” é candidato a presidente. A Secretaria de Educação procura garimpar algum sucesso, ficando na comparação entre os resultados dos dois últimos anos, esquecendo os demais anos.

Desde a passagem do grupo de Maria Helena Castro pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, com seu “pacote” de receitas (hoje transferidos para o MEC), o Estado se arrasta na educação. A receita milagrosa: definição dos objetivos, materiais de ensino, avaliação e bônus – a curiosa “teoria do alinhamento” -, que vez por outra ouvimos agora de Brasília, não consegue dar conta da complexidade das redes.

Certamente um conjunto de fatores gerou esta situação. Não podemos fazer como os reformadores empresariais que, ao menor suspiro positivo da curva de desempenho dos estudantes, atribuem a melhora à sua política de responsabilização, sem nenhuma pesquisa séria. Se o mero balanço positivo não serve para elogiar, o negativo também não serve para criticar. No entanto, pode-se dizer que o equívoco de persistir em uma fracassada política de responsabilização baseada em testes e bônus de mérito (veja aqui o caso do fracasso americano) tomou o tempo e impediu que se usassem outras abordagens mais participativas e menos controladoras que poderiam ter gerado resultado mais positivo para a rede paulista.

Deixando de lado os sobressaltos momentâneos observados ao longo do tempo, as provas (apesar de não poderem ser consideradas sinônimo de boa educação) mostram uma “planície” no desempenho paulista. São Paulo conseguiu a proeza de ter uma queda em Língua Portuguesa mesmo no ensino fundamental dos anos iniciais, em 2017, área em que o Brasil vai bem desde 2002.

No conjunto, os resultados mostram uma rede estagnada com pequenas variações para cima e para baixo ao longo dos últimos dez anos. Assim vamos no Estado símbolo do PSDB, de década perdida em década perdida.

MatFinal

TabelaSaresp18

Em matemática, no terceiro ano do EF, a diferença entre a média de 2017 e o ano em que a rede já teve sua melhor média (2015), é uma queda de -12,4 pontos. Na quinta série, há um acréscimo de 0,2 pontos. Na sétima, de 0,9. Na nona 1,2 e no ensino médio uma queda de -2,5 pontos.

PortFinal

Em língua portuguesa, no terceiro ano do EF, a diferença entre a média de 2017 e o ano em que a rede já teve sua melhor média (2014), é de -13,3. Na quinta série, o melhor desempenho da rede foi em 2016 e há igualmente uma queda de -4,3, em 2017. Na sétima, o melhor desempenho está em 2016 e houve um acréscimo de 2,9 pontos em 2017. Na nona, em relação a 2015, há uma elevação de 4,7 e no ensino médio, em relação ao melhor desempenho ocorrido em 2009, há uma queda de -0,1.

Os dados da Prova Brasil (Ideb) sinalizam igualmente as dificuldades da rede paulista, em especial após 2009. Nos anos iniciais do fundamental, somente em 2015 o Ideb registra retomada de ritmo de crescimento. No entanto, o Saresp que acaba de ser divulgado mostra queda no desempenho dos alunos de 5o. ano em língua portuguesa. Os alunos do 3o. ano já haviam levado tombo antes (tanto em língua portuguesa como em matemática).

IdebInicial2SP

Nos anos finais, a rede continua abaixo da meta para o Estado.

IdebInicialSP

Olhando para o número de crianças que no Ideb de 2015 tinham atingido o nível de aprendizado adequado em São Paulo (segundo processamento do site QEdu) temos um quadro que corrobora o fiasco da responsabilização baseada em testes, produto de mais de 20 anos de controle do PSDB no Estado.

PorcentoAdequaSP

Nos anos iniciais (5o. ano) estamos em torno de 60% de aprendizagem adequado no Ideb 2015. No 9o. ano dos anos finais o recuo é grande. Patinamos em língua portuguesa com 33%, e em matemática com míseros 15% de aprendizagem adequada. Se prosseguíssemos a análise levando em conta segregação social, veríamos um cenário mais grave ainda.

O grande serviço que o Estado de São Paulo está prestando ao país é mostrar, para quem quiser ver, que estas políticas de responsabilização baseadas em testes que se quer, agora, ampliar para todo o país via MEC, reproduzindo a política de São Paulo, não servem para melhorar a educação de forma sustentável e com qualidade social. Não aprender com a experiência dos outros é uma coisa, mas não aprender com a própria experiência, é outra: chama-se burrice.

Uma observação final: não achamos que esta engenharia numérica possa dar conta de expressar a qualidade da educação paulista, mas é a que os reformadores empresariais criaram para mostrar como suas políticas são a “salvação nacional” da educação, colocando-a em linha com o século XXI. Com suas próprias regras, com suas próprias medidas, a educação paulista vai mal, muito mal…

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O beco sem saída da “direita”

A nova direita (uma articulação parlamentar, judiciária e midiática), ao dar prosseguimento ao Golpe de 2016 anulando Lula e outros à esquerda, comete um erro do qual se arrependerá, tardiamente. Não são poucas as vozes que alertam para o fato de que a condenação de Lula e sua eventual prisão aumentam a radicalização ou, como gostam de dizer, a “polarização” no país. Isso é um outro nome para a velha “luta de classe”.

A direita (antiga) sempre valorizou lideres conciliadores na esquerda. Mais experiente que os Dória da “nova direita”, ela viveu a pressão da classe trabalhadora no pós-guerra e aprendeu a valorizar lideranças que impediam que a massa trabalhadora radicalizasse, colocando no lugar o “diálogo entre patrão e empregado”. A questão, na época, era anular as lideranças “radicais” que pregavam o socialismo e, portanto, a luta de classes.

Com este movimento, a direita isolou a liderança de esquerda considerada mais radical e valorizou o nascimento de uma “nova esquerda” que jogava o jogo, que pretendia fazer avançar a luta dos trabalhadores por dentro do próprio sistema, pelas eleições representativas da democracia liberal. Ainda podemos nos lembrar, os mais velhos, da capa de revistas da direita que nos anos 80 saudavam Genuino, Aloisio Mercadante e José Dirceu como as novas lideranças que iriam redefinir as esquerdas. O PT nasceu para ocupar este espaço: para construir a conciliação dos interesses dos trabalhadores com algo que se poderia chamar de “burguesia nacional”. Uma espécie de ganha-ganha.

A estratégia de eliminar a força político-eleitoral da “nova esquerda” por golpes jurídico-parlamentar-midiáticos tem as mesmas preocupações de Hayek no pós-guerra desenvolvidas por Buchanan nos Estados Unidos com financiamento dos Irmãos Koch (veja aqui). Ela é “inovadora” na medida em que prega abertamente abrir mão da democracia liberal que entende ser uma forma de organização que não resiste às pressões da massa. Neste sentido, a “nova esquerda” entrou em um barco furado, acreditando que as regras do jogo valiam. Esta mudança de entendimento caracteriza o conflito entre a direita (antiga), do tipo Alckmin e FHC, e a “nova direita” do tipo Doria. No Brasil, por agora, este conflito parece ter sido acomodado com a entrega do governo do Estado de São Paulo a Doria. Mas ela está se organizando para assumir o controle.

Com a queda do socialismo e o aumento das contradições do capitalismo, as teses desta “nova direita” emergente se fortalecem e vão sendo aceitas como tábua de salvação da acumulação de riqueza – especialmente a ideia de que a democracia representativa não tem forças, pela sua própria dinâmica, para conter as pressões da massa sobre o sistema democrático, fazendo com que este seja levado a introduzir nas constituições nacionais e na legislação ordinária as reivindicações dos trabalhadores, as quais dificultam a manutenção das taxas de acumulação.

Sem nenhum “agradecimento”, a “nova direita” dispensou a “nova liderança de esquerda” que elogiou no passado. Sente-se forte no atual cenário para enfrentar toda a esquerda e dispensar lideranças conciliadoras. Acirra, portanto, unilateralmente, a luta de classes, face às dificuldades que tem de garantir horizonte para suas taxas de acumulação sem que sejam feitas as tais “reformas”.

No pano de fundo está a sobrevivência das próprias burguesias nacionais de países como o Brasil se não aceitarem as regras do “mercado” internacional que exige as reformas. Enquanto Lula era condenado, a Bolsa de Valores batia recorde aos 83 mil pontos: com Lula fora do páreo, nada pode atrapalhar seus planos de acumulação. Esta é a “estabilidade” que o andar de cima procura.

A “nova esquerda” não estava errada do ponto de vista eleitoral. Tanto que tornou-se uma força considerável a ponto de meter medo. Mas a questão que se recusou a examinar foi a viabilidade de produzir mudanças substanciais pela via eleitoral, sendo atacada pelas costas por flancos jurídicos e parlamentares. Acabou crescendo demais para os propósitos da “nova direita”. Carta Capital denuncia reunião ocorrida em Atlanta (USA):

“No fim de 2012, Manolo Pichardo, político da República Dominicana, participou de uma sinistra reunião na suíte de um hotel em Atlanta, nos Estados Unidos. Alguns ex-presidentes latino-americanos de inclinação de centro ou direita discutiram como varrer adversários progressistas do mapa. Afinal, dizia um dos presentes, Luis Alberto Lacalle, ex-mandatário uruguaio, “não podemos ganhar desses comunistas pela via eleitoral”.”

As teses da “nova direita”, ao promover a radicalização – e é preciso que fique claro que é ela quem está radicalizando e não a esquerda – e eliminar as lideranças conciliatórias supõe um erro de base: a de que a esquerda é um fenômeno supra-estrutural da política e que pode ser eliminada junto com seus líderes. Pretende abrir caminho para realizar sua política (inclusive a privatização radical) que permitiria que o povo vivenciasse a nova lógica social e com isso percebesse as vantagens desta política frente à da esquerda. É cega para as consequências sociais contraditórias de sua ação.

O pensamento de esquerda não é produto do PT. Acabar com o PT e suas lideranças não acaba com a esquerda. Antes, o PT é produto das condições de vida sociais que ele procura interpretar à sua maneira. É produto das condições do funcionamento social e estas, sob a “nova direita”, vão ficar mais difíceis e não mais fáceis como eles pretendem demonstrar. As reformas que estão sendo feitas vão bater forte na classe trabalhadora produzindo um precariado que terá condições objetivas de luta jamais vistas antes. O descuido, insisto, é que quando o conflito aumentar, as lideranças conciliadoras (e o próprio sistema democrático liberal – parlamento e judiciário) já estarão desgastadas pelo embate que estão produzindo e a estratégia conciliatória estará desacreditada, restando apenas o caminho do arbítrio em substituição à democracia liberal o que levará ao confronto. Este é o sentido mais grave que se pode atribuir ao atual movimento da “nova direita” e que Roberto Romano, por outros motivos, chama de “atitude impensada” (referindo-se à condenação de Lula dia 24 de Janeiro de 2018):

“A decisão não abarcou a complexidade da situação política em que nós vivemos”, afirmou. Segundo Romano, os eleitores de Lula, em grande medida de origens mais pobres, não têm uma relação de confiança com o Judiciário brasileiro.”

Dessa forma, setores à direita desconstroem aquilo que poderia no futuro ser sua própria saída, ante as consequências da radicalização ou polarização que agora estão produzindo, a qual levará a fortes reações em termos de horizonte histórico. No entanto, do ponto de vista da esquerda, por contraste, a radicalização da “nova direita” com as reformas abre possibilidades de luta imensas.

O golpe de 64 mostrou que o espaço para produzir reformas desde dentro do sistema, participando do jogo, é praticamente nulo. O golpe de 2016 ratificou esta mesma compreensão, por outros meios, e mostra até onde está disposta a ir a “nova direita” para proteger seu sistema: abrir mão da própria democracia liberal na qual a esquerda acreditou. Este é o significado da “cassação” de Dilma e agora da “cassação” de Lula.

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Cappelli: meritocracia e ameaça à democracia

Na esteira do que já comentamos sobre o livro de N. MacLean, Ricardo Cappelli faz um excelente resumo do que nos espera:

“O capitalismo viverá nos próximos anos uma radicalização. Estima-se que mais de 70% dos empregos existentes hoje deixarão de existir nos próximos 10 anos. Com o advento da chamada indústria 4.0, inteligência artificial e etc., teremos uma concentração de renda e capital jamais vista na história da humanidade. Esta situação é incompatível com a democracia. Como manter sociedades equilibradas, um sistema político democrático com tamanha exclusão, com uma indecente concentração de riqueza?”

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MEC, CONSED, UNDIME e LEMANN discutem BNCC

A imprensa local do Ceará da destaque à presença do Secretário de Educação Básica do MEC em reunião preparatória para a implantação da BNCC com o Secretário da Educação Estadual do Ceará e também presidente do CONSED, a UNDIME e nada menos do que o Gerente de Políticas Educacionais da Fundação Lemann, financiadora do Movimento pela Base. A reunião ocorre no Ceará.

“Com o objetivo de discutir a implantação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que norteará a elaboração dos currículos das redes municipais, estaduais e federal de ensino, o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) promoveu reunião com o Ministério da Educação (MEC), nesta terça-feira (16), no gabinete do secretário da Educação do Ceará, Idilvan Alencar. Participaram o secretário da Educação Básica (SEB)/MEC, Rossieli Soares, o presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais (Undime), Aléssio Costa Lima, e o Gerente de Políticas Educacionais da Fundação Lemman, David Boyd. O Consed é presidido pelo secretário cearense, que defendeu a unificação do currículo como forma de democratizar o acesso ao ensino de qualidade.

A pauta do encontro foi a implantação da BNCC para a educação infantil e o ensino fundamental. Neste sentido, a experiência desenvolvida há 10 anos no Ceará, no que diz respeito à cooperação com os municípios, por meio do Programa de Alfabetização na Idade Certa (Paic), servirá de referência nacional para a efetivação da Base, conforme observa Rossieli.”

A Agência Brasil também repercutiu a iniciativa:

“O secretário da Educação Básica do MEC, Rossieli Silva, reuniu-se hoje (16) em Fortaleza com o secretário da Educação do Ceará, Idilvan Alencar, e com o presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais (Undime), Aléssio Costa Lima, para debater o assunto e conhecer as experiências do estado que podem auxiliar na construção e revisão dos currículos, material didático e formação de professores.”

O MEC está impressionado com o modelo do Programa Alfabetização na Idade Certa (Paic), implantado há 10 anos no Ceará e que reduziu de 32% para 0,7% o número de crianças não alfabetizadas até o final do segundo ano. Isso significa que o que teremos é uma cópia da “solução Ceará” para o restante do país.

“A base trouxe essa decisão de, na alfabetização, seguir o exemplo do Ceará e ter a alfabetização feita até o segundo ano. O restante será feito respeitando o contexto local. O currículo não será definido por Brasília ou por gabinetes, mas pela participação dos professores num processo que já é feito aqui no estado”, disse o representante do MEC.

Assumido o modelo Ceará, o que fica para a participação dos professores é apenas discutir detalhes da implementação.

“Idilvan Alencar, que também preside o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), explicou que o programa cearense criou formas de cooperação entre o estado e os municípios que podem facilitar a implantação da BNCC e servir de exemplo para o Brasil.”

“Implantar a base significa desenvolver currículos e materiais didáticos novos. É um grande desafio, pois o documento oportuniza direitos iguais para todos. Defendemos uma boa implantação, com a participação de professores e diretores e, aqui do Ceará, vamos ajudar nacionalmente”, acrescentou Idilvan.

Fica mais claro dessa forma: a BNCC procurará seguir o PAIC. Isso significa que a BNCC poderá estar imersa em uma política de responsabilização – tal como o Ceará que distribui dinheiro aos municípios em função de desempenho educacional – e também por uma política de avaliação – modelo Sobral. É a avaliação que de fato determinará o currículo local – associada a políticas de responsabilização e a materiais didáticos pré-fabricados por Institutos.

Aliás, os produtores de materiais didáticos articulados com avaliação já estão a postos por lá (Ceará) e podem, agora, ampliar seu mercado.

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Home School dos horrores

Diane Ravitch comenta o caso dos pais que acorrentaram os 13 filhos em casa nos Estados Unidos. Acabaram descobertos e estavam, na realidade, registrados como uma Homeschool – uma escola em casa. Em 14 Estados americanos os pais podem abrir uma escola em casa e não enviar seus filhos à escola pública, preenchendo apenas um formulário. Em 11 não precisam nem avisar o poder público. Isso ajudou a que se estabelecessem condições que facilitaram o delito.

A desregulação defendida pelo privatismo – tanto para as escolas privadas como para as escolas em casa conduzida pelos pais – deixa as crianças vulneráveis, como se viu no presente caso.

Leia mais aqui ou aqui.

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Temer privatiza, britânicos querem reestatizar

“Enquanto o Brasil atrasa seu relógio histórico e volta ao tempo das privatizações, o restante do mundo já percebeu a importância do controle estatal de serviços essenciais. Um exemplo é o Reino Unido, laboratório do neoliberalismo, que agora rejeita a entrega de suas empresas à iniciativa privada. É o que mostram pesquisas recentes.

O Reino Unido de Margaret Thatcher foi, logo depois do Chile de Pinochet, um dos primeiros países a adotar uma política de privatizações, que atingiu setores como água, gás, eletricidade, transporte ferroviário e telecomunicações.

Ocorre que as promessas de competição, custos reduzidos e serviços melhores nunca se concretizaram. Ao invés disso, os setores antes sob responsabilidade do Estado mundo afora têm sido dominados por monopólios privados, subsídios injustos, preços abusivos e investimentos muito abaixo do necessário, que comprometem a qualidade. Mais: trabalhadores tiveram seus salários achatados e suas condições de trabalho agravadas.

Um artigo publicado no The Guardian, assinado por Will Hutton, diretor do Big Innvation Centre, traduz a insatisfação dos britânicos em números: 83% são a favor da nacionalização da água, 77% da eletricidade e do gás e 76% do transporte ferroviário. “Há uma visão generalizada de que as metas de lucro exigidas pelos acionistas anularam obrigações de serviço público. E o público está certo”, diz o texto.”

Continue lendo aqui.

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Banco Mundial reconhece erro com Chile

O problema com relatórios fakes, como o que atingiu recentemente o Brasil recomendando a privatização das universidades com dados imprecisos, ocorre agora com a economia do Chile, prejudicando a candidata Bachelet. O Banco Mundial admite que manipulou dados sobre o Chile que prejudicaram a imagem do Governo de Bachelet nas eleições.

“A edição do The Wall Street Journal (WSJ) deste sábado, 13 de janeiro, causou um profundo impacto no mundo da política e da economia chilenas. O economia-chefe do Banco Mundial, Paul Romer, reconheceu ao jornal que o organismo financeiro, oficialmente subordinado às Nações Unidas, alterou seu ranking de competitividade empresarial e prejudicou o Chile – e, mais especificamente, Michelle Bachelet. Trata-se do relatório Doing Business, em que a posição do Chile caiu constantemente durante o mandato da socialista (2006-2010), subiu no Governo de direita de Sebastián Piñera (2010-2014) e voltou a cair quando a médica assumiu um novo mandato (2014-2018). Nesses 12 anos, o Chile flutuou entre o posto 25 e o 57.

As variações teriam ocorrido “por motivações políticas”, segundo as palavras de Romer ao WSJ. “Quero pedir desculpas pessoalmente ao Chile e a qualquer outro país ao qual possamos ter transmitido uma impressão errada”, afirmou o economista.”

Leia mais aqui.

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BNCC e avaliação

Uma colaboradora do Blog reuniu uma série de materiais sobre como anda a articulação da BNCC – a base nacional curricular comum – com a avaliação, a partir do site do CONSED – Conselho Nacional de Secretários de Educação. Os materiais podem informar futuras pesquisas sobre o tema.

  1. Seminário Internacional vai debater avaliação da educação básica em Recife
  2. Programação do Seminário de Avaliação
  3. Andamento do Grupo de Trabalho
  4. Posicionamentos sobre as versões da Base foram resultados importantes do GT
  5. Necessidade de redesenho da avaliação escolar e consenso no primeiro dia do seminário
  6. Consed reúne técnicos das secretarias para falar sobre competências para a vida
  7. Apresentação de Fred Amancio
  8. Apresentação de Francisco Soares
  9. Apresentação de Joaquim Neto
  10. Faça o download das apresentações do Seminário Internacional de Avaliação da Educação Básica
  11. Principais recomendações formalizadas pelos seminários estaduais
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Não é ignorância, é o “mercado”…

Editorial da Folha, com seu tradicional privatismo, reflete sobre a questão da formação dos médicos. Sempre usando a “liberdade de imprensa” a favor do “mercado”, ou seja, a favor do 1% que fatura e cresce diariamente, ela conclui:

“Já o quesito das deficiências na formação pode resolver-se mais facilmente, sem intervenções sobre o funcionamento do mercado [ou seja sem regular a abertura de novos cursos de medicina]: basta tornar o exame de proficiência obrigatório para emissão do diploma. Os alunos e seus pais saberão evitar o investimento de seis anos de estudos em escolas com baixos índices de aprovação.”

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Simples de tudo. Tão simples e fácil que se torna simplista e errado. No entanto, isso não deve ser atribuído a uma ignorância dos editores da Folha. Na verdade, esta é a lógica do “mercado” que o veículo representa: avalia-se, premia-se as bem avaliadas com alunos e as demais, fecha-se por falta de alunos. O “mercado” opera seus milagres e tudo que ele toca, vira “qualidade”. Pergunta-se: desde quando um teste de múltipla escolha atesta qualidade de um profissional?

A razão, como já temos dito por aqui, é que o tal mercado tem horror à regulação. Quando estimula a privatização dizendo que se pode privatizar “regulando” bem, de fato está blefando. É um argumento apenas para facilitar a aceitação da privatização. Como se vê com Trump nos Estados Unidos e aqui na Folha, regulação é tida como intervenção do Estado no mercado. Não é a meta final dos empresários. Ao contrário: é a desregulação que o mercado prega.

Ontem divulguei texto de Diane Ravitch comemorando a data do fim de uma lei que motivou esta política de avaliação nos Estados Unidos, extinta a partir de 2015, ou seja, a desastrosa Lei No Child Left Behind promulgada em 2002. Disse que, por aqui, a ideia de avaliar, premiar e punir ainda é forte. O editorial da Folha confirma isso.

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NCBL: uma lei para se aprender com ela

Oito de Janeiro é a data de comemoração da falida lei No Child Left Behind americana (NCLB) – “Nenhuma criança deixada para trás” – editada em 2002 pelo Congresso e que pretendeu responsabilizar as escolas por altas expectativas de desempenho dos alunos, premiando ou punindo-as. Pode-se dizer que foi a primeira “lei de responsabilidade educacional” nos Estados Unidos, na era da “accountability”.

Diane Ravitch escreve sobre esta data “comemorativa” celebrando o fim daquela lei em 2015, após fracasso rotundo. A lei dava prazo até 2014 para que todas as escolas americanas fossem proficientes em leitura e matemática.

É importante registrar a “comemoração” americana do fim desta lei, porque foi exatamente influenciado por ela que Reynaldo Fernandes, então presidente do INEP no governo Lula, criou o IDEB e a Prova Brasil. Mas, aqui, ao contrário dos Estados Unidos, continuamos acreditando mais ainda nestas besteiras e implementando nossa “lei de responsabilidade educacional” no Congresso. Vivemos tempos em que os arautos da privatização se agarram às ideias da “accountability” verticalizada para justificar a privatização no Brasil (veja aqui). É importante que se estude o que aconteceu naquele país com iniciativas como esta, para aprendermos antes que seja tarde.

Para Diane:

“A NCLB, como se sabia, é a pior legislação federal de educação já aprovada pelo Congresso. Era punitiva, severa, estúpida, ignorante sobre pedagogia e motivação e, finalmente, um triste fracasso. Aqueles que ainda admiram a NCLB ou ajudaram a escrever, ou foram pagos para gostar, ou estavam lucrando com isso.”

A lei foi assinada por Bush (o filho) em 2002:

“Quando ele fez campanha pela presidência, ele e seus representantes alegaram que havia um “milagre no Texas” [estado que antecipou a aplicação destas ideias ainda quando Bush era governador do Texas]. Não havia.

Tudo o que era necessário, diziam eles, era testar todas as crianças do terceiro ao oitavo graus todos os anos em leitura e matemática. Torna públicos os resultados das escolas. Recompensar as escolas que elevassem suas pontuações. Punir as escolas com menores pontuações. Em seguida, se veria como os resultados dos exames aumentariam, as taxas de graduação aumentariam e as lacunas de desempenho [entre pobres e ricos] seriam fechadas. Não aconteceu no Texas, e nem no âmbito nacional. A teoria era simples, simplista e estúpida: testar, depois punir ou recompensar.”

“O Congresso exigiu que cada aluno em cada escola devesse ser proficiente em testes padronizados de leitura ou matemática ou a escola era considerada fracassada, enfrentando fechamento ou privatização até 2014. A NCLB era um atalho, definido para destruir a educação pública americana pelo estabelecendo de um objetivo impossível e que visava a que quase todas as escolas de cada estado em algum momento falhassem.”

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